5 de jun de 2012

A garota que às vezes pensava demais. [3]







A noite estava em um silencio sublime, tudo que se ouvia era a chuva misturada com os soluços daquele vulto que corria apressado para casa, as lágrimas se misturavam com as gotas que lavavam o rosto da pobre como se quisesse consolar a desgraça que havia acontecido.
Alguns passos desesperados e a porta foi aberta pelo vulto que agora mais parecia uma garota encharcada e com os olhos muito vermelhos. Ela havia estado chorando há horas, prometeu a si mesma nunca mais chegar perto de ninguém, nem falar com ninguém, ou sentir algo por alguém ou dizer isso pra alguém. Nunca mais.
Isso não era atual, fazia meses ou até anos que a promessa foi feita, mas quando ela viu pelos seus olhos as consequências de trancar o que ela sentia, viu que perdeu tudo que fazia sentido. O único que lhe restava era entrar no mundo escuro e vazio dos seus sonhos, entrou em seu quarto e mesmo completamente molhada mergulhou sua cabeça em sua cama.
Mas aquele sonho foi diferente de tudo que ela sabia ser possível, não se lembrava de muita coisa, mas começou como um sonho qualquer, em outro mundo:
O lugar todo estava em uma aquarela de cores e acima de sua cabeça voavam animais nunca antes imaginados, em sua frente abria-se um espesso bosque azul e quanto mais ela explorava mais diferente era o lugar, mesmo com toda aquela alegria só escorriam lágrimas de seus olhos, até que então ao sair do bosque ela se viu sobre um morro muito alto e na ponta dele estava alguém a atirar-se, por impulso ela foi ajudar a pobre criatura e acabou caindo com ela em algum ponto muito sombrio do recantos dos sonhos, um lugar onde a aquarela não ousava pisar, as lágrimas teimosas pararam de escorrer e foram trocadas pelo medo do vazio que aquilo proporcionava, os dentes começaram a tremer pela corrente de frio que havia passado e então ao olhar ao seu lado estava alguém sorrindo, alguém com expressões que os sonhos não traduziam, mantendo seu rosto em sigilo para quem o visse, somente deixando a risada ecoar naquele vazio. Indignada indagou -Como ousa rir em um lugar tão obscuro?
Mas o suposto rapaz de rosto misterioso pareceu olhar dentro dela e dizer -Obscuro? Talvez seja, talvez não.
-Por qué não traduz seu rosto para que eu possa ver?
-Porque você precisa procurar ele pra mim e quando achar o seu também estará visível. - E com isso o sorriso se transformou no olhar mais lindo que ela já havia visto e quando sentiu que a figura se aproximava para junto ao seu rosto ela acordou, repetindo as últimas palavras que havia escutado.

Esse dia nunca saiu de sua cabeça e nunca sairia, ela sabia que deveria procurá-lo e quando achasse também saberia que acharia ela e por isso ela desceu daquele ônibus lotado, depois de várias viagens, talvez o que precisava era um lugar como de um sonho qualquer, um outro mundo. Se ela deveria procurar outro nem ela sabia, ela pensava muito, mas somente às vezes.

(1) - (2


Angel :D